please give me a river to watch

as I am digging deep

and I am digging wide

a river that would wash away those tears of loneliness

a river that would give me a sense of belonging – finally

for here is still cold and hollow

and some of the harshness unbearable

give me a tree that I can hug

and a feeling that I understand

as I see myself wandering

among empty experiences full of neediness

where no one is really listening

all rivers carry the same message

all trees know the same truth

why should I desperate?

tomorrow I will wake up from the same dream of death

from the dream of betrayal

and the dream of not seeing those I love anymore

In all this confusion

I forget who I deeply am

Who I deeply love

And feel this very uncomfortable detachment

And I grow harder and dryer

struggling to find meaning

loosing all control of things

going with a flow that don’t really flows

and is not a river

it’s a hard sterile water

that seems to bring only evil indifference

why should I keep diving in this

incomprehensible madness

where I empty myself of all force

and suck in the emptiness of others too

and when they can barely cope

there is the indifference that hits hard

and the inner demons that start to take over

at this exact moment

I remember the river

I long for the tree

I let the tears roll

and wait for the shift of the tide.

Comunicando alegria – um breve estudo da língua inglesa falada e comunicada.

Sempre fugi de pesquisas de opinião, entrevistas, pessoas arrecadando dinheiro pra caridade no meio da rua. É chato, intrusivo e inconveniente. Mas a gente faz quase tudo por dinheiro. E vamos combinar que dentre todos meus pequenos empregos que minha vida no Reino Unido me proporcionou, este ainda é o melhor.

Agora é profissão repórter, para um website cujo objetivo é comunicar alegria! Ah, tá.

Anyways, what an anthropological study this has revealed to be!

Na verdade, cada trabalho revela um pouco mais. Cada atividade, cada contato com diferentes aspectos da vida e psiquê inglesas dá um novo insight. Na verdade minhas observações dariam um livro, afinal são seis anos de trabalho de campo. Mas aqui vão algumas delas, iniciadas este fim de semana. Se tu acha que fala inglês, não esteja tão certo assim. Se tu acha que Londres é uma multicultura pacífica, hum, tenho minhas dúvidas (well o estudo de guetos somente em Londres daria outro livro, fora os estrangeiros flutuantes e seus respectivos comportamentos uma vez aqui). Bom o tema deste breve comentário (nem tão breve assim) é comunicação. Este lance de “communicate happiness” me deixou bastante curiosa. E não precisei muito pra chegar à conlusão de que é exatamente como diz o ditado – pra inglês ver. Para tanto, dividi a sociedade inglesa grosseiramente em quatro categorias, sendo que uma delas são os povos incorporados, porque pra mim não existe Grã-Bretanha. Deixei de fora muita gente e muitas coisas. Principalmente as boas, porque eu tô é puta da cara mesmo. mas vou reservar um post mais sério para defender os ingleses que amo. Sim, eles existem, e acreditem, concordam comigo.

Agora, as categorias:

CORPORATIVA

O slogan do website é “communicate happiness”. O conceito deles é meio estranho e sem sentido. Tudo parece muito com lavagem de dinheiro. Os repórters entrevistam pessoas em eventos, shows, jogos de futebol, feiras, festivais, etc. As entrevistas são feitas com câmeras flip (é um vídeo web) e curtas, a maioria dura menos de um minuto. As perguntas são completamente desnecessárias. O importante é quantidade, e o mínimo são quarenta por evento.

Voltando ao “communicate happiness” – como me parece completamente inviável fazer dinheiro pra pagar aos repórters uma hora tão bem paga (ausência total de patrocinadores – que se saiba), eles vendem “corporate assignments”. O que significa que qualquer organizador de um evento pode nos contratar pra “cobrir” o evento, e “espremer”, como numa pesquisa de opinião e mercado, das pessoas um feedback, e claro, communicate happiness. O sistema de trabalho é bem interessante para os repórters. Há uma espécie de planilha on-line, com os próximos eventos que o website estará cobrindo, e a gente aplica pra trabalhar naquele evento – se quiser, se puder, se tiver afim. Aham. Parece o trabalho dos sonhos. Mas agora, vem as entrelinhas.

A temporada das luxuosas corridas de cavalos e de chapéus escandalosos está aberta. E o site foi contratado pelos organizadores para cobrir os eventos. E vejam as maravilhosas exigências e cordiais diretrizes para os repórters – repórters com tatuagens visíveis não podem trabalhar no evento, não serão permitidos uso de brincos e piercings, somente será permitido o uso de meia-calças opacas, e agora o escândalo (que é fofoca interna, porque aparentemente somente quem já está aprovado pra trabalhar no evento recebeu o email) – não entrevistar negros.

Vou poupar vocês da minha fúria. Mas hey – communicate happiness eh! Meu cu seu bando de racistas!

Agora pra nossa segunda categoria:

CLASSE MEDIA XENOFOBA (o mac não me deixa colocar acento em letras maiúsculas)

Pra comunicar alegria, a gente tem que ser simpático, falante e sorridente, mesmo de ressaca, de saco cheio ou triste. E é a prostituição do humor, do estado de espírito, dos dentes arregaçados. A cultura efusiva e piadista dos ingleses é bastante forte. Todo mundo é engraçadinho e espirituoso. e tem que entrar no rítmo da festa. OK, voilá.

Mas mesmo com todo este esforço no approach, mais de uma vez ouvi a seguinte frase – sorry, I can’t understand. Teve uma idiota, que mesmo antes de eu me aproximar dela enquanto ela conversava com uma amiga (eu tava há um bom metro e meio de distância) olhou bem na minha cara e gritou – NO! E a melhor de todas, que disseram prum doce de criatura que trabalha comigo – just go away.

Well. Impossível que elas não tenham entendido meu inglês. Mas uma coisa elas perceberam – meu sotaque de estrangeira. E meu amigo, well again, é italiano e gay. Se tivéssemos os dois cara e sotaque do príncipe William e da dona Kate, DUVIDO que isso tivesse acontecido. Well (pela terceira vez) – não acontece com os ingleses que trabalham com a gente. E vejam bem, digo ingleses, porque irlandeses, galeses e escoceses sofrem preconceito bastante semelhante, e as vezes até pior. E já que entrei neste assunto, vou adicionar uma categoria a seguir que não é inglesa, mas supostamente britânica (outra invenção pra inglês ver – quer ser autônomo mesmo? chama o IRA) .

POVOS INCORPORADOS

Aqui eu poderia adicionar ainda duas subcategorias – os humildes, que por razões pessoais ou culturais assumiram a posição de inferior e incompreendidos (exatamente por este comportamento dos ingleses onde quem não tem sotaque inglês na verdade fala outra língua) e os orgulhosos e rebeldes, que mantem a cultura própria, a língua e o orgulho em si mesmos. Estes não me interessam aqui porque estão bem (apesar dos pesares) no sentido que não se deixam diminuir cultural e socialmente, mesmo que politicamente estejam na merda. Mas são os considerados humildes que me preocupam, porque eles, diferente de nós brasileiros, italianos, espanhóis, whatever, não tem escolha de voltar pra casa. Estão em casa e se sentindo menor do que seus colonizadores. E isto é péssimo. Tive a mesma experiência com duas senhoras irlandesas e um rapaz escocês. Me aproximei das senhoras pra entrevistá-las e elas muito simpáticas e entendendo tudo que eu dizia me respondiam – mas tu não vai entender nada do que a gente diz, we’re irish! E eu perguntei, vocês me entendem? E elas disseram que sim e eu respondi, então, eu também entendo vocês! E elas riram e disseram OK, me deram a entrevista e depois perguntaram rindo, mas tu entendeu alguma coisa? E depois o rapaz escocês, que depois da entrevista perguntou rindo – precisa de legenda? I’m scottish!

E se o feeling é esse não é à toa. Quando um escocês, galês ou irlandês fala na TV inglesa, não é raro a presença de legendas. E é bom frisar que estas pessoas estão falando inglês (com exatidão gramatical e alguma diferença em expressões, mas inglês pqp!) e não suas próprias línguas. Duvido que o contrário aconteça.

Ah, e para ilustrar a ignorância sem tamanho deste povo, quando eu trabalhava no cinema não eram raras as ligações perguntando qual era a programação. E depois de informados, a pergunta – mas é em inglês ou com legenda? E depois da resposta de que era com legenda, significando que era um filme espanhol, francês ou italiano, a pergunta – mas vocês não estão passando nenhum filme em inglês? E depois da resposta negativa, a pergunta – mas tu sabe de algum cinema que esteja passando um filme em inglês? Ah, tá. Quer que eu te pegue pela mão agora queridinho.

WORKING CLASS EMERGENTE

Aqui o que reina é o bronzeado artificial, a gordura localizada, as argolas enormes, as calças e tênis brancos, os cabelos esticados num rabo de cavalo bem alto para as meninas e arrepiados em topete para os meninos. O programa de fim de semana é ir na gravação do X-Factor em Wembley e esperar por horas do lado de fora até que uma limosine com vidros cobertos com insulfilme passe. Aí eles gritam (homens e mulheres) até a morte, sem nem saber quem está dentro. Faça chuva, sol, calor, caia neve – elas estão semi-nuas, pernas de fora, decotes nas costas que vão até a bunda, gordas ou não. A maquiagem pode ser retirada numa peça só, como uma máscara na escola de artes. Os meninos bebem Stella e as meninas Bacardi Breezer e todos bebem cidra em garrafas plâsticas de dois litros. E falam alto, muito alto. E são esses que invariavelmente dão entrevista. Qualquer câmera é câmera, qualquer oportunidade é oportunidade. Innit?

E a triste notícia é – uma vez working class, sempre working class. E as alternativas são – se tornar um marginalizado completo, já que estou fora do sistema aqui fico e aqui reino, ou tentar entrar no sistema e subir um degrau sem sucesso, porque o sotaque entrega.

Só é respeitado quem tem o sotaque de Cambridge. O sotaque da BBC. O Queen’s English. O inglês do subúrbio também é outra língua.

Vale sempre lembrar que a sociedade inglesa faz questão de que cada um saiba seu lugar e se mantenha nele. Não há intenção de mudança WHATSOEVER.

Quer coisa mais ridícula do que uma monarquia?

But still they say it’s a free country. And it is. But that I’ll tell you later.

Por todos os lados forças contrariantes. Me dê uma noite de sono em paz. Com egos e desentendimentos, todos falam diferentes línguas próprias e ninguém se escuta. Aqui grito sozinha uma noite que quase não dormi. Em que precisava de um certo tipo de amigo que não estava ao alcance. Daqueles que a gente pode realmente abrir as gavetas da insanidade e chorar as incongruências. Esta noite passa e eu canso de atrito. Descanso e acordo doente e com dor nas costas. Sigo a vida e encontro com todos os Plutões que estão fadados a me seguir o caminho até o próximo dezembro. E neste mundo de distâncias imediatas, chovem palavras mal colocadas, expressões de sarcasmo, soberbas reticentes. Se baixo a guarda eles avançam, se avanço eles me quebram as pernas. Hey, leave me alone! Alguns se dão conta do mal entendido, outros entram na viagem e nunca retornam. Se no final eu passarinho, tá belê, mas se não, que indisposição!

Bom dia!

Bom dia aos que não tem máquina de lavar roupa. Bom dia aos que engordam, às mulheres que mesmo sem querer tem bigodes sobressalentes. Às verrugas que nascem pelo corpo, às feridas que surgem na pele. Bom dia aos pelos encravados, às olheiras, aos cabelos desnivelados. Bom dia aos cheiros do corpo e da casa, às roupas que não tem lugar próprio, e às que se rasgam, embolotam, encurtam, se esgamelam. Bom dia às panelas cujos cabos se soltam, ao forno desregulado que queima bolos, ao chuveiro que funciona quando quer, ao interfone que ninguém ouve. Bom dia à água que vaza da geladeira, às janelas que mofam por falta de sol, bom dia à falta de espaço! Um ótimo dia ao sol que brilha em Londres, me obrigando a sair de casa, mesmo sem ânimo ou vontade. Bom dia ao desespero pela luz, à iminência do apocalípse mental e arquetípico. Bom dia à gordura localizada, aos que têm diabetes, aos drogados e alcólatras, aos que têm psoríase, eczema, pereba. Bom dia aos anões, aos altos demais, aos que têm pés desproporcionais. Bom dia à todos que sempre tem menos, aos achincalhados, aos analfabetos de qualquer coisa, aos ignorantes e aos poliglotas que sabem poucas línguas. Porque sempre é pouco, sempre é insuficiente, sempre é descompassado.

Bom dia à imperfeição dos conceitos que nos deixa doente da alma!

Ao excesso de desejos que nos torna fúteis!

Aos contratempos que nos re-orientam.

Porque precisamos desaprender, desapegar, desconstruir, pra que possamos ver aquilo que ainda não sabemos por sermos apenas papagaios de um sistema.

Porque se temos o Alaska queremos a China e se temos a China queremos Porto Alegre e se temos Porto Alegre queremos Marrakesh.

Bom dia ao que ainda não vimos, não sabemos, não sentimos, traga à nós a sabedoria pura essencial. Nos deixe esquecer o corpo, as sensações e reações imediatas.

Nos mostre e nos deixe ver.

why life looks so fucked up sometimes

hey, ces já ouviram o polyphonic spree? talvez não faça a mínima diferença pra nenhum de vocês, mas tem segurado minha onda mais ou menos nos últimos dias. é o papo de togetherness, saca? uma coisa meio all together now, whatever.

tão simples fazer uma escolha estúpida… e todo o alicerce cai. não que já não tivesse periclitante na ilusão do cedimento.

mas dizer uma coisa. a normalidade dos outros me cansa. mais do que me cansa, me deprime, porque me faz sentir mega fucked up.

hey, tu aí fazendo tudo como todo mundo, tu me irrita. tu me irrita porque joga na minha cara que eu não posso, que eu não sou, que eu não vou, e que eu morro e não faço nada como ninguém. eu vou me esconder sim atrás do discurso da originalidade, mas a verdade é que eu não posso diferente, por condições tanto pessoais quanto mundanas, tanto financeiras quanto ideológicas. e enquanto eu me fecho dentro de casa porque as vezes eu não posso com a velocidade de fora, a verdade é que eu não acho a velocidade de dentro. e se eu tenho que parar porque me mandam, cotinuo no automático até cair, e perceber que foi tudo além de cansativo, inútil.

e na necessidade de desligar, parar, contemplar a merda esparramada por todos os lados, a gente dá um jeito de se lambuzar um pouco mais, sempre. perde-se uma semana, que no fim do ano não faz diferença. e segue-se comendo pão com margarina.

e nesses dias em que se acorda com a sensação de estar tudo fora de controle e enviezado, nas manhãs de merda tamanha, ou de silêncio xarope e não vontade de mover, falar, comer, interagir, nas manhãs que não precisavam existir, se você tiver alguém compartilhando deste momento único na existência, de desamor pela humanidade e si mesmo, desesperadamente se apegue. e escute o polyphonic spree.

It takes a lot to laugh, it takes a train to cry – Bob Dylan

monocromático, monofônico, um monobloco de monosilábicos.

And the snow came, early.

And the cold came too, intense.

The power went, three times in seven days.

And I went plutonian.

Neva em Londres meus senhores, como ainda não visto em dezembro. E o frio, que corta as pernas da coxa que o casaco não cobre e as polainas não alcançam. Quando claro, meio escuro. Pequenas estaladas e batidinhas vem do aquecedor que também clica de vez em quando. E a bolsa de água quente que eu abraço, sento em cima, coloco no colo, sob os pés e depois embaixo dos pés, e depois ainda nos pés da cama. Vejo filmes também e finalmente desobceco do trabalho. Tenho sonhos gostosos, aventureiros e enigmáticos, onde rastejo por baixo de recém pousados e ainda quente aviões velhos que pingam oléo do motor quase nas minhas costas. E que quando passo o avião-helicóptero agora cavalo mijando quase senta em cima de mim. Mas depois há uma festa de dois dias, numa casa na floresta, e o rio é lindo e claro, mas que depois de uma certa hora está repleto de pessoas do mal que dão medo. Exploro os sons do sintetizador e aprendo os mistérios das programações. Aprendo também os planetas em nós, enquanto nós no planeta nos mostramos cada vez mais desnecessários. Me encho o saco das caras e bocas e dos que não tem coragem de dizer, e me odeio, por as vezes não ter tido coragem de dizer. Mas com a neve eu mais que nunca durmo, porque é natural dos seres vivos fazê-lo. Como também, porque é bom. E relaxo, porque esse é o desafio do ano que se aproxima, deixar rolar honey. E me junto aos quietos passos na neve que abafa os ruidos, e deixo que tudo se torne silêncio e luminosidade. E que venha o inverno.

Song’re weird – they tell the future and they tell the past, but they can’t seem to tell the difference – K. Hersh

À magia nórdica que se dissipa, eu agradeço me permitir ser mais um pouquinho de mim mesma a cada dia. E que eu lembre antes de arrancar os cabelos, que é tudo uma ilusão idiota, que amanhã a gente morre e nada disso fez sentido.

Que eu consiga descer até o fundo, pra que de lá eu aprenda a diferenciar o que é leviano do que realmente me transforma. Hoje sento sem vontade e uma enorme irritação. Mas sei que o entusiasmo volta.

virtualidades

uma vez uma amiga de facebook postou – tem alguma coisa que o Iphone não faça?

na verdade eu não entendo o Iphone, o Ipad, todas essas novas tecnologias de celular e virtualidades. talvez eu esteja ficando velha e muito a moda antiga. talvez eu decida ficar mais a moda antiga ainda e passe a datilografar cartas numa máquina de escrever e mandá-las pelo correio que anda muito eficiente, entregando cartas do reino unido pro brasil em apenas três semanas! mas tem um mundo virtual alheio a gente que tá crescendo de verdade, e ao qual não se pode ficar alheio por completo. nossas vidas já são virtualmente manipuladas de forma assustadora o suficiente, a ponto de quantias de dinheiro virtualmente criadas e virtualmente mandadas de um lado pra outro, com pessoas loucas aos gritos no telefone celular, no radinho ou doentemente grudadas na tela de um computador, comprando e vendendo coisas que elas nunca viram, pegaram, tocaram porque na verdade nunca existiram fisicamente ou concretamente, brincando de apostar, ganhar, aplicar e perder, num banco imobiliário de gente grande, influenciar no preço da passagem de ônibus, no preço do aluguel, na decisão do teu chefe de te dar um pé na bunda ou não, na quantidade de espinafre disponível no supermercado, no preço dos remédios, e se a gente vai comer melão na primavera ou não. pra mim é muito difícil de engolir que estas idéias virtuais de mercado e do que um pedaço de papel oficial pode adquirir (que pode mudar de hoje pra amanhã) possam influenciar minha vida tão diretamente, e pior, que tem um bando de idiotas egocentricos manipulando isso tudo, exatamente aqueles que eu desprezo, vestidos de preto se movimentando em duas ondas diárias, das oito as nove e das cinco as seis, ficando extremamente bêbados no meio de tudo. só de pensar que o centro financeiro mais importante do mundo é constituído de pessoas que tomam litros de cerveja na hora do almoço e voltam pro escritório brincar de apostar na bolsa, vomitando no lixo do lavabo, entre um movimento e outro, me dá medo pensar o que o resto das pessoas vão passar a fazer em resposta a vida miserável que estes homens criaram pra todos nós, no momento em que elas também vão ter o controle virtual das coisas. talvez outros mercados se criem e este decadente caia em desuso. talvez pra que outros venham, os alicerces deste tenham que realmente sucumbir. talvez não. talvez uma guerra de exércitos virtuais se instale, se tornando real, só mais uma guerra entre outras.

mas tem o lado ‘mais leve’ de tudo isso e pode ser que se possa ter uma conversa, assim, tet-a-tet, via Iphone. por exemplo, eu conecto minha rede de amigos virtual, que vai ter o nome da companhia vai dominar o mundo, e contato minha amiga em porto alegre e convido ela prum intervalo matinal e a gente mata a saudade tomando um chimarrão virtual, com ela virtualmente sentada na sala do meu micro-apartamento, literalmente, esquecendo que o telefone toca e os emails chegam. neste caso é tudo uma questão de aplicativo. hoje já se pode achar namorado em festa, mandar beijos virtuais, e possuir até mesmo a tower of london, num projeto que pode sair em briga de faca se uma corja de debilóides resolver usar sob a inflência de 10 litros de cidra e uma grama de speed. o jogo de videogame e computador que já é tão real e envolvente, o qual já vicia crianças de 12 anos de idade, a ponto de terem criado uma clínica para junkies de computador juvenis em londres, onde as crianças são internadas e passam por processos de desintoxicação semelhantes ao de um viciado em heroína (com cold turkey e tudo!), aos poucos é substituído por inocentes aplicativos de celular, que se compra e baixa pela internet no Iphone. por enquanto nada é muito bombástico, mas o desenvolvimento é mais acelerado que meu entendimento. não se precisa ser um nerd gênio de computador pra inventar um desses, qualquer um pode, usando os programas certos e que não são muito difíceis de conseguir, é só ter um pouco de paciência, um computador da Apple e um Iphone, pra testar. o virtual e o real estão ficando cada vez mais difusos e confundidos e logo a pergunta da borboleta vai ser mais que pertinente. o que os yogis sonhavam ser possível com a meditacão, todas as conquistas e os teletransportes, vão ser possíveis de ser realizados com um clique de dedo num teclado de celular, num ônibus lotado as oito da manhã. se a gente para pra analisar, hoje, um ônibus lotado, se vê uma legião de pessoas falando sozinhas. as vezes eu demoro pra sacar se o indivíduo tá mesmo falando sozinho (por as vezes tá) ou se tá falando no celular com os micro-head-whatever. logo, além de falarem sozinhas, elas estarão fazendo muitas outras coisas, conquistando territórios, mandando beijos, espionando o namorado (e não vai ser no facebook), indo pra outros lugares, fumando ópio, roubando bancos ou ainda matando pessoas (que já fazem nos joguinhos). na verdade, tudo que ja fazem, mas com muito mais realidade e é isso que preocupa, que se qualquer coisa dessas cai na mão de um cidadão estressado, cheio de complexos e problemas psicológicos, delusional, pode ser que logo tudo se torne extra-real pra ele e a diferença entre cometer o ato de verdade e virtualmente pode ser muito tênue. e o contrário também pode ser tricky, no momento em que a realidade virtual pode se tornar a única realidade de uma pessoa, ficando o contato humano cada vez mais obsoleto, porque o virtual já é real o suficiente, e melhor de tudo, completamente manipulável. pra que lidar com contrariedades, se tudo pode ser como a minha vontade? o tempo real pode estar se tornando mais real do que nunca e esse pá-pum as vezes me assusta, porque não nos dá tempo de respirar, analisar, ponderar, digerir nada. o que era fast-food tá virando ultra-speed-reality. e eu espero que essas realidades virtuais todas não ceguem as pessoas. que elas não deixem de ver que além de uma telinha da Apple, tem um mundo em desintegração ao redor delas. que esta bolinha de elementos envolta em gás flutuando num infinito preto tá ficando incomodada, reclamando e chacoalhando a bunda. o meu medo é que as pessoas se percam tanto neste mundo paralelo tecnológico e percam de vez o contato com a sabedoria da alma anciã que tem em cada um de nós. quantos terremotos, enchentes e vulcões serão ainda precisos pra que a gente decida reverter o caminho, ir pro quintal conversar e ouvir os passarinhos ao invés de se exilar num mundo virtual e inconcreto?

Eyjafjallajokull & me


e era tempo de sair de férias, esta tão pequeno burguesa desocupação. era tempo de pegar um avião e cair em outro país, mais ensolarado, menos povoado, diferente. mas florença também estaria reverberando de turistas, mas não importa, eu queria ver o telescópio do galileu. e um vulcão entrou em erupção na islândia e ouvimos dos auto-falantes do aeroporto algo mais ou menos que os vôos pra lá estavam sendo cancelados, mas fomos tomar um café, que ainda faltavam 20 minutos pro meu check in de não europeu. e de repente todos os vôos passaram a ser cancelados e esperamos, já rindo, putz, não vai rolar. fui no balcão da ryanair que cuspia tanta gente quanto cinzas vulcânicas eram jogadas no ar, onde fomos informados que esperássemos, que ainda podia ser que sim. mas nada, e voltamos, com o mesmo bus o dia ensolarado do vulcão. ainda remarcamos as passagens duas vezes, porque não havia previsão de que iria acontecer. fomos no planetário, que depois do programa wonders of the solar system da BBC com o idiota do brian cox, ficou sem graça e eu de novo dormi, como na turquia. comemos carne gaúcha no mercado de greenwich, compramos discos e tomamos café e no dia seguinte fizemos picnic no victoria park, e fomos aproveitando os dias ensolarados que finalmente chegaram na terra desolada dos prédios e comida importada. vimos nas notícias que talvez a comida começasse a ficar escassa, sendo que 90% das frutas e 60% dos vegetais que os ricos comem nesta terra chegam de avião. nem parece que viveram duas guerras. com o vislumbre de comer só batatas por meses corremos no tesco comprar salada e frutas, just in case. ainda tínhamos esperança de voar no domingo, mas cancelaram tudo até segunda e decidimos pegar a barraca e ir pra epping forest. comprei um luxo de colchão que se infla por vontade própria e cobertor de picnic com um lado de plástico e o outro de flanela e pulamos na central line. já viu ir acampar de metrô e taxi? pois chegando na estação de loughton se pega um taxi por cinco pilas que te leva até o camping. colocamos a barraca num canto e fomos caminhar na floresta. fizemos um picnic com os sanduiches que levei de casa na beira dum laguinho e apareceu um cachorro que pensei que ia me avançar pra pegar minha comida, mas que nada, ele só olhou e saiu feliz com o dono que nos cumprimentou. todo mundo muito civilizado na floresta. pequenas casinhas com cavalos, lebres por todos os lados, um lago com patos esquizitos e muitos pássaros com cantos psicodélicos e metálicos no entardecer. levei um livro pra ler em voz alta pro meu amor, e que ironia, era o big sur do jack kerouac, eu que andava de mau com os beatniks. e ele pra cima e pra baixo no big sur, com medo do selvagem demais, escrevendo os barulhos do mar a meia noite, ele que precisava de um tempo, é agora ou eu morro, eu tenho que ir senão eu morro e não diferente de minha alma que as vezes pede paz e um espaço amplo e sem pessoas e que vivo nesse amontoado de gente, num micro-apartamento, onde eu sou feliz mas que me agonio porque a alma quer mais, sempre quer. eu que leio com nostalgia as coisas que achava lindo na adolescencia, e que ele foi até o fim, mas eu não quero o fim dele então abdiquei. e fui (fomos) pra epping forest, pra floresta dos normandos e dos vitorianos, onde viadinhos passeiam, e cavalos são mimados e coelhinhos pulam aos montes lindinhos e fofos e todos os pássaros diferentes que não cansei de ouvir. e o vulcão ainda lá, em erupção, jogando cinzas quilômetros acima e causando pela europa e avisando, muito mais ainda está por vir. e eu fui pro meu big sur, pro meu camping com banheiro e chuveiro quente e noite congelante. mas o que importa é que voltei sem olheiras.