Sempre fugi de pesquisas de opinião, entrevistas, pessoas arrecadando dinheiro pra caridade no meio da rua. É chato, intrusivo e inconveniente. Mas a gente faz quase tudo por dinheiro. E vamos combinar que dentre todos meus pequenos empregos que minha vida no Reino Unido me proporcionou, este ainda é o melhor.
Agora é profissão repórter, para um website cujo objetivo é comunicar alegria! Ah, tá.
Anyways, what an anthropological study this has revealed to be!
Na verdade, cada trabalho revela um pouco mais. Cada atividade, cada contato com diferentes aspectos da vida e psiquê inglesas dá um novo insight. Na verdade minhas observações dariam um livro, afinal são seis anos de trabalho de campo. Mas aqui vão algumas delas, iniciadas este fim de semana. Se tu acha que fala inglês, não esteja tão certo assim. Se tu acha que Londres é uma multicultura pacífica, hum, tenho minhas dúvidas (well o estudo de guetos somente em Londres daria outro livro, fora os estrangeiros flutuantes e seus respectivos comportamentos uma vez aqui). Bom o tema deste breve comentário (nem tão breve assim) é comunicação. Este lance de “communicate happiness” me deixou bastante curiosa. E não precisei muito pra chegar à conlusão de que é exatamente como diz o ditado – pra inglês ver. Para tanto, dividi a sociedade inglesa grosseiramente em quatro categorias, sendo que uma delas são os povos incorporados, porque pra mim não existe Grã-Bretanha. Deixei de fora muita gente e muitas coisas. Principalmente as boas, porque eu tô é puta da cara mesmo. mas vou reservar um post mais sério para defender os ingleses que amo. Sim, eles existem, e acreditem, concordam comigo.
Agora, as categorias:
CORPORATIVA
O slogan do website é “communicate happiness”. O conceito deles é meio estranho e sem sentido. Tudo parece muito com lavagem de dinheiro. Os repórters entrevistam pessoas em eventos, shows, jogos de futebol, feiras, festivais, etc. As entrevistas são feitas com câmeras flip (é um vídeo web) e curtas, a maioria dura menos de um minuto. As perguntas são completamente desnecessárias. O importante é quantidade, e o mínimo são quarenta por evento.
Voltando ao “communicate happiness” – como me parece completamente inviável fazer dinheiro pra pagar aos repórters uma hora tão bem paga (ausência total de patrocinadores – que se saiba), eles vendem “corporate assignments”. O que significa que qualquer organizador de um evento pode nos contratar pra “cobrir” o evento, e “espremer”, como numa pesquisa de opinião e mercado, das pessoas um feedback, e claro, communicate happiness. O sistema de trabalho é bem interessante para os repórters. Há uma espécie de planilha on-line, com os próximos eventos que o website estará cobrindo, e a gente aplica pra trabalhar naquele evento – se quiser, se puder, se tiver afim. Aham. Parece o trabalho dos sonhos. Mas agora, vem as entrelinhas.
A temporada das luxuosas corridas de cavalos e de chapéus escandalosos está aberta. E o site foi contratado pelos organizadores para cobrir os eventos. E vejam as maravilhosas exigências e cordiais diretrizes para os repórters – repórters com tatuagens visíveis não podem trabalhar no evento, não serão permitidos uso de brincos e piercings, somente será permitido o uso de meia-calças opacas, e agora o escândalo (que é fofoca interna, porque aparentemente somente quem já está aprovado pra trabalhar no evento recebeu o email) – não entrevistar negros.
Vou poupar vocês da minha fúria. Mas hey – communicate happiness eh! Meu cu seu bando de racistas!
Agora pra nossa segunda categoria:
CLASSE MEDIA XENOFOBA (o mac não me deixa colocar acento em letras maiúsculas)
Pra comunicar alegria, a gente tem que ser simpático, falante e sorridente, mesmo de ressaca, de saco cheio ou triste. E é a prostituição do humor, do estado de espírito, dos dentes arregaçados. A cultura efusiva e piadista dos ingleses é bastante forte. Todo mundo é engraçadinho e espirituoso. e tem que entrar no rítmo da festa. OK, voilá.
Mas mesmo com todo este esforço no approach, mais de uma vez ouvi a seguinte frase – sorry, I can’t understand. Teve uma idiota, que mesmo antes de eu me aproximar dela enquanto ela conversava com uma amiga (eu tava há um bom metro e meio de distância) olhou bem na minha cara e gritou – NO! E a melhor de todas, que disseram prum doce de criatura que trabalha comigo – just go away.
Well. Impossível que elas não tenham entendido meu inglês. Mas uma coisa elas perceberam – meu sotaque de estrangeira. E meu amigo, well again, é italiano e gay. Se tivéssemos os dois cara e sotaque do príncipe William e da dona Kate, DUVIDO que isso tivesse acontecido. Well (pela terceira vez) – não acontece com os ingleses que trabalham com a gente. E vejam bem, digo ingleses, porque irlandeses, galeses e escoceses sofrem preconceito bastante semelhante, e as vezes até pior. E já que entrei neste assunto, vou adicionar uma categoria a seguir que não é inglesa, mas supostamente britânica (outra invenção pra inglês ver – quer ser autônomo mesmo? chama o IRA) .
POVOS INCORPORADOS
Aqui eu poderia adicionar ainda duas subcategorias – os humildes, que por razões pessoais ou culturais assumiram a posição de inferior e incompreendidos (exatamente por este comportamento dos ingleses onde quem não tem sotaque inglês na verdade fala outra língua) e os orgulhosos e rebeldes, que mantem a cultura própria, a língua e o orgulho em si mesmos. Estes não me interessam aqui porque estão bem (apesar dos pesares) no sentido que não se deixam diminuir cultural e socialmente, mesmo que politicamente estejam na merda. Mas são os considerados humildes que me preocupam, porque eles, diferente de nós brasileiros, italianos, espanhóis, whatever, não tem escolha de voltar pra casa. Estão em casa e se sentindo menor do que seus colonizadores. E isto é péssimo. Tive a mesma experiência com duas senhoras irlandesas e um rapaz escocês. Me aproximei das senhoras pra entrevistá-las e elas muito simpáticas e entendendo tudo que eu dizia me respondiam – mas tu não vai entender nada do que a gente diz, we’re irish! E eu perguntei, vocês me entendem? E elas disseram que sim e eu respondi, então, eu também entendo vocês! E elas riram e disseram OK, me deram a entrevista e depois perguntaram rindo, mas tu entendeu alguma coisa? E depois o rapaz escocês, que depois da entrevista perguntou rindo – precisa de legenda? I’m scottish!
E se o feeling é esse não é à toa. Quando um escocês, galês ou irlandês fala na TV inglesa, não é raro a presença de legendas. E é bom frisar que estas pessoas estão falando inglês (com exatidão gramatical e alguma diferença em expressões, mas inglês pqp!) e não suas próprias línguas. Duvido que o contrário aconteça.
Ah, e para ilustrar a ignorância sem tamanho deste povo, quando eu trabalhava no cinema não eram raras as ligações perguntando qual era a programação. E depois de informados, a pergunta – mas é em inglês ou com legenda? E depois da resposta de que era com legenda, significando que era um filme espanhol, francês ou italiano, a pergunta – mas vocês não estão passando nenhum filme em inglês? E depois da resposta negativa, a pergunta – mas tu sabe de algum cinema que esteja passando um filme em inglês? Ah, tá. Quer que eu te pegue pela mão agora queridinho.
WORKING CLASS EMERGENTE
Aqui o que reina é o bronzeado artificial, a gordura localizada, as argolas enormes, as calças e tênis brancos, os cabelos esticados num rabo de cavalo bem alto para as meninas e arrepiados em topete para os meninos. O programa de fim de semana é ir na gravação do X-Factor em Wembley e esperar por horas do lado de fora até que uma limosine com vidros cobertos com insulfilme passe. Aí eles gritam (homens e mulheres) até a morte, sem nem saber quem está dentro. Faça chuva, sol, calor, caia neve – elas estão semi-nuas, pernas de fora, decotes nas costas que vão até a bunda, gordas ou não. A maquiagem pode ser retirada numa peça só, como uma máscara na escola de artes. Os meninos bebem Stella e as meninas Bacardi Breezer e todos bebem cidra em garrafas plâsticas de dois litros. E falam alto, muito alto. E são esses que invariavelmente dão entrevista. Qualquer câmera é câmera, qualquer oportunidade é oportunidade. Innit?
E a triste notícia é – uma vez working class, sempre working class. E as alternativas são – se tornar um marginalizado completo, já que estou fora do sistema aqui fico e aqui reino, ou tentar entrar no sistema e subir um degrau sem sucesso, porque o sotaque entrega.
Só é respeitado quem tem o sotaque de Cambridge. O sotaque da BBC. O Queen’s English. O inglês do subúrbio também é outra língua.
Vale sempre lembrar que a sociedade inglesa faz questão de que cada um saiba seu lugar e se mantenha nele. Não há intenção de mudança WHATSOEVER.
Quer coisa mais ridícula do que uma monarquia?
But still they say it’s a free country. And it is. But that I’ll tell you later.