Song’re weird – they tell the future and they tell the past, but they can’t seem to tell the difference – K. Hersh

À magia nórdica que se dissipa, eu agradeço me permitir ser mais um pouquinho de mim mesma a cada dia. E que eu lembre antes de arrancar os cabelos, que é tudo uma ilusão idiota, que amanhã a gente morre e nada disso fez sentido.

Que eu consiga descer até o fundo, pra que de lá eu aprenda a diferenciar o que é leviano do que realmente me transforma. Hoje sento sem vontade e uma enorme irritação. Mas sei que o entusiasmo volta.

virtualidades

uma vez uma amiga de facebook postou – tem alguma coisa que o Iphone não faça?

na verdade eu não entendo o Iphone, o Ipad, todas essas novas tecnologias de celular e virtualidades. talvez eu esteja ficando velha e muito a moda antiga. talvez eu decida ficar mais a moda antiga ainda e passe a datilografar cartas numa máquina de escrever e mandá-las pelo correio que anda muito eficiente, entregando cartas do reino unido pro brasil em apenas três semanas! mas tem um mundo virtual alheio a gente que tá crescendo de verdade, e ao qual não se pode ficar alheio por completo. nossas vidas já são virtualmente manipuladas de forma assustadora o suficiente, a ponto de quantias de dinheiro virtualmente criadas e virtualmente mandadas de um lado pra outro, com pessoas loucas aos gritos no telefone celular, no radinho ou doentemente grudadas na tela de um computador, comprando e vendendo coisas que elas nunca viram, pegaram, tocaram porque na verdade nunca existiram fisicamente ou concretamente, brincando de apostar, ganhar, aplicar e perder, num banco imobiliário de gente grande, influenciar no preço da passagem de ônibus, no preço do aluguel, na decisão do teu chefe de te dar um pé na bunda ou não, na quantidade de espinafre disponível no supermercado, no preço dos remédios, e se a gente vai comer melão na primavera ou não. pra mim é muito difícil de engolir que estas idéias virtuais de mercado e do que um pedaço de papel oficial pode adquirir (que pode mudar de hoje pra amanhã) possam influenciar minha vida tão diretamente, e pior, que tem um bando de idiotas egocentricos manipulando isso tudo, exatamente aqueles que eu desprezo, vestidos de preto se movimentando em duas ondas diárias, das oito as nove e das cinco as seis, ficando extremamente bêbados no meio de tudo. só de pensar que o centro financeiro mais importante do mundo é constituído de pessoas que tomam litros de cerveja na hora do almoço e voltam pro escritório brincar de apostar na bolsa, vomitando no lixo do lavabo, entre um movimento e outro, me dá medo pensar o que o resto das pessoas vão passar a fazer em resposta a vida miserável que estes homens criaram pra todos nós, no momento em que elas também vão ter o controle virtual das coisas. talvez outros mercados se criem e este decadente caia em desuso. talvez pra que outros venham, os alicerces deste tenham que realmente sucumbir. talvez não. talvez uma guerra de exércitos virtuais se instale, se tornando real, só mais uma guerra entre outras.

mas tem o lado ‘mais leve’ de tudo isso e pode ser que se possa ter uma conversa, assim, tet-a-tet, via Iphone. por exemplo, eu conecto minha rede de amigos virtual, que vai ter o nome da companhia vai dominar o mundo, e contato minha amiga em porto alegre e convido ela prum intervalo matinal e a gente mata a saudade tomando um chimarrão virtual, com ela virtualmente sentada na sala do meu micro-apartamento, literalmente, esquecendo que o telefone toca e os emails chegam. neste caso é tudo uma questão de aplicativo. hoje já se pode achar namorado em festa, mandar beijos virtuais, e possuir até mesmo a tower of london, num projeto que pode sair em briga de faca se uma corja de debilóides resolver usar sob a inflência de 10 litros de cidra e uma grama de speed. o jogo de videogame e computador que já é tão real e envolvente, o qual já vicia crianças de 12 anos de idade, a ponto de terem criado uma clínica para junkies de computador juvenis em londres, onde as crianças são internadas e passam por processos de desintoxicação semelhantes ao de um viciado em heroína (com cold turkey e tudo!), aos poucos é substituído por inocentes aplicativos de celular, que se compra e baixa pela internet no Iphone. por enquanto nada é muito bombástico, mas o desenvolvimento é mais acelerado que meu entendimento. não se precisa ser um nerd gênio de computador pra inventar um desses, qualquer um pode, usando os programas certos e que não são muito difíceis de conseguir, é só ter um pouco de paciência, um computador da Apple e um Iphone, pra testar. o virtual e o real estão ficando cada vez mais difusos e confundidos e logo a pergunta da borboleta vai ser mais que pertinente. o que os yogis sonhavam ser possível com a meditacão, todas as conquistas e os teletransportes, vão ser possíveis de ser realizados com um clique de dedo num teclado de celular, num ônibus lotado as oito da manhã. se a gente para pra analisar, hoje, um ônibus lotado, se vê uma legião de pessoas falando sozinhas. as vezes eu demoro pra sacar se o indivíduo tá mesmo falando sozinho (por as vezes tá) ou se tá falando no celular com os micro-head-whatever. logo, além de falarem sozinhas, elas estarão fazendo muitas outras coisas, conquistando territórios, mandando beijos, espionando o namorado (e não vai ser no facebook), indo pra outros lugares, fumando ópio, roubando bancos ou ainda matando pessoas (que já fazem nos joguinhos). na verdade, tudo que ja fazem, mas com muito mais realidade e é isso que preocupa, que se qualquer coisa dessas cai na mão de um cidadão estressado, cheio de complexos e problemas psicológicos, delusional, pode ser que logo tudo se torne extra-real pra ele e a diferença entre cometer o ato de verdade e virtualmente pode ser muito tênue. e o contrário também pode ser tricky, no momento em que a realidade virtual pode se tornar a única realidade de uma pessoa, ficando o contato humano cada vez mais obsoleto, porque o virtual já é real o suficiente, e melhor de tudo, completamente manipulável. pra que lidar com contrariedades, se tudo pode ser como a minha vontade? o tempo real pode estar se tornando mais real do que nunca e esse pá-pum as vezes me assusta, porque não nos dá tempo de respirar, analisar, ponderar, digerir nada. o que era fast-food tá virando ultra-speed-reality. e eu espero que essas realidades virtuais todas não ceguem as pessoas. que elas não deixem de ver que além de uma telinha da Apple, tem um mundo em desintegração ao redor delas. que esta bolinha de elementos envolta em gás flutuando num infinito preto tá ficando incomodada, reclamando e chacoalhando a bunda. o meu medo é que as pessoas se percam tanto neste mundo paralelo tecnológico e percam de vez o contato com a sabedoria da alma anciã que tem em cada um de nós. quantos terremotos, enchentes e vulcões serão ainda precisos pra que a gente decida reverter o caminho, ir pro quintal conversar e ouvir os passarinhos ao invés de se exilar num mundo virtual e inconcreto?

Eyjafjallajokull & me


e era tempo de sair de férias, esta tão pequeno burguesa desocupação. era tempo de pegar um avião e cair em outro país, mais ensolarado, menos povoado, diferente. mas florença também estaria reverberando de turistas, mas não importa, eu queria ver o telescópio do galileu. e um vulcão entrou em erupção na islândia e ouvimos dos auto-falantes do aeroporto algo mais ou menos que os vôos pra lá estavam sendo cancelados, mas fomos tomar um café, que ainda faltavam 20 minutos pro meu check in de não europeu. e de repente todos os vôos passaram a ser cancelados e esperamos, já rindo, putz, não vai rolar. fui no balcão da ryanair que cuspia tanta gente quanto cinzas vulcânicas eram jogadas no ar, onde fomos informados que esperássemos, que ainda podia ser que sim. mas nada, e voltamos, com o mesmo bus o dia ensolarado do vulcão. ainda remarcamos as passagens duas vezes, porque não havia previsão de que iria acontecer. fomos no planetário, que depois do programa wonders of the solar system da BBC com o idiota do brian cox, ficou sem graça e eu de novo dormi, como na turquia. comemos carne gaúcha no mercado de greenwich, compramos discos e tomamos café e no dia seguinte fizemos picnic no victoria park, e fomos aproveitando os dias ensolarados que finalmente chegaram na terra desolada dos prédios e comida importada. vimos nas notícias que talvez a comida começasse a ficar escassa, sendo que 90% das frutas e 60% dos vegetais que os ricos comem nesta terra chegam de avião. nem parece que viveram duas guerras. com o vislumbre de comer só batatas por meses corremos no tesco comprar salada e frutas, just in case. ainda tínhamos esperança de voar no domingo, mas cancelaram tudo até segunda e decidimos pegar a barraca e ir pra epping forest. comprei um luxo de colchão que se infla por vontade própria e cobertor de picnic com um lado de plástico e o outro de flanela e pulamos na central line. já viu ir acampar de metrô e taxi? pois chegando na estação de loughton se pega um taxi por cinco pilas que te leva até o camping. colocamos a barraca num canto e fomos caminhar na floresta. fizemos um picnic com os sanduiches que levei de casa na beira dum laguinho e apareceu um cachorro que pensei que ia me avançar pra pegar minha comida, mas que nada, ele só olhou e saiu feliz com o dono que nos cumprimentou. todo mundo muito civilizado na floresta. pequenas casinhas com cavalos, lebres por todos os lados, um lago com patos esquizitos e muitos pássaros com cantos psicodélicos e metálicos no entardecer. levei um livro pra ler em voz alta pro meu amor, e que ironia, era o big sur do jack kerouac, eu que andava de mau com os beatniks. e ele pra cima e pra baixo no big sur, com medo do selvagem demais, escrevendo os barulhos do mar a meia noite, ele que precisava de um tempo, é agora ou eu morro, eu tenho que ir senão eu morro e não diferente de minha alma que as vezes pede paz e um espaço amplo e sem pessoas e que vivo nesse amontoado de gente, num micro-apartamento, onde eu sou feliz mas que me agonio porque a alma quer mais, sempre quer. eu que leio com nostalgia as coisas que achava lindo na adolescencia, e que ele foi até o fim, mas eu não quero o fim dele então abdiquei. e fui (fomos) pra epping forest, pra floresta dos normandos e dos vitorianos, onde viadinhos passeiam, e cavalos são mimados e coelhinhos pulam aos montes lindinhos e fofos e todos os pássaros diferentes que não cansei de ouvir. e o vulcão ainda lá, em erupção, jogando cinzas quilômetros acima e causando pela europa e avisando, muito mais ainda está por vir. e eu fui pro meu big sur, pro meu camping com banheiro e chuveiro quente e noite congelante. mas o que importa é que voltei sem olheiras.

fearless pinhole freaks

uma vez na província de onde venho, os ônibus circulavam com fotos pinhole da cidade grudadas nas janelas. era bonito de ver, por que se passava pelos mesmos lugares das fotos, se via a cidade de forma diferente, bonita em preto e branco e com o distorcido da câmera-lata. anos depois uma das pessoas envolvidas no projeto se mudou pra londres e veio morar na casa onde eu morava. ficamos amigas e durante muitas conversas, cigarros e vinho, entendi como que a tal de lata tirava fotos. um tempo depois mudamos pra outro apartamento e montamos um darkroom no banheiro, que ficava semanas todo vermelho. fiz minhas primeiras pinholes naquela época, mas nenhuma saiu legal porque eu era muito estabanada. mais tempo ainda depois uma amiga que conheci aqui começou a fazer pinhole na faculdade de artes. e a construir câmeras com latas de diversos tamanhos e furos e a fazer fotos muito interessantes. mais mais mais tempo depois ainda eu resolvi inventar um projeto e juntar essas duas amigas e mais um pessoal que passeava por londres, que também faziam parte daquele primeiro grupo de porto alegre, das fotos nos ônibus. uma amiga trouxe outra amiga da escócia e eu chamei meu amigo cineasta pra documentar tudo. começamos a duas segundas atrás, e saímos pelas ruas do sul e leste de londres com latas de chocolate em pó, tirando fotos de graffitti, porque esta é a idéia, a de fotografar street art com pinhole, imprimir posters e colocar eles no mesmo lugar onde tiramos a foto. até agora tá sendo bem divertido, o processo é lento, mas logo logo já teremos fearless pinhole freaks posters misturados com os graffittti da cidade. e tudo registrado em filme, já estamos pensando na estréia lá no cineminha. comecei o blog do grupo, mas to bem devagar por lá. mas dentro em breve sai. e vai ser bem legal.

pra sobreviver a gente se enfia em outra realidade. o bloco sonoro dos carros em jamanta passando do lado de fora por todos os lados (exceto por um triangulo equilatero de cinco metros, onde duas arvores e um robin habitam), eu diluo em ondas descoordenadas, perdidas na noite da ilha que desaparecem no pe da nossa cama palafita. o alarme de emergencia que apita na entrada do predio, a quinze passos da minha porta – desde quinta feira antes do feriado – vira grilo no meu desespero por sanidade basica. assim eu transformo em natureza e inspiracao todos os contratempos.

e a gente vai levando.

it’s a wonderful life

bisbilhotando a vida alheia no facebook, descubro que Mark Linkous, do Sparklehorse, se matou.

abriu um rombo na minha barriga.

SPARKLEHORSE IT’S A WONDERFUL LIFE.

vodka & cigarretes

acordei de um sonho em que eu tomava meia garrafa de vodka e fumava uma carteira de cigarros escodida do meu namorado. sem luz em função de um blecaute no leste, saio de cabelo sujo sem culpa. em bricklane a manhã lagarteava as horas devagarinho, e eu precisando de um café urgente. me apresento no posto de saúde 10 minutos antes do horário, sento e pego um folheto promocional de férias holísticas na grécia. por 300 pounds por semana e 100 de depósito, se vai a terra de quirão, pra curar as feridas da alma e brincar de fanático espiritualista com os hippies ricos do planeta. tenho 10 minutos com o médico, que eu tenho certeza que fez um intensivo de medicina por correspondência, que de novo, como todos os outros, me receita cortizona pra psoriase. suspiro e entro na farmácia estrategicamente localizada a 5 passos do posto, comprar a bisnaga. a farmácia tem clima de loja de armarinho, considerando a sujeira do chão. os farmaceuticos empacotadores em pé atrás de uma das prateleiras no fundo da loja, embrulhando as receitas. sento ao lado de uma senhora muçulmana lacrimejante de gripe e espero minha encomenda. assisto o movimento. entram dois poloneses grandões e cheirando a álcool dormido, que vieram buscar o tratamento pra parar de fumar. logo em seguida o típico viciado em heroina, desdentado, rosto murcho, magro de dar dó, vestindo calça de abrigo, jaqueta preta imitando couro e touca preta. kevin, que espera sua encomenda em frente ao mostrador de perfumes da calvin klein, miss sixty e versace, pega o pacote da mão do farmaceutico num gesto nervoso e rápido, checa a metadona, e sai sem dizer tchau pro balconista simpático. chega a minha vez, e um jovem rapaz asiático sai de traz da prateleira e chama meu nome, me entrega o pacote, e fico pensando no porque daquela pose de mauricinho que acabou de sair da faculdade de contabilidade. volto pra casa com meu pacote desesperançada, porque em 13 anos de psoríase, nada mudou no polígrafo dos médicos e eu mais uma vez vou tentar o mesmo tratamento. talvez eu precisasse mesmo de uma garrafa de vodka e um maço de cigarros, pra desestressar a alma. ou me juntar com os hippies mais ricos do mundo na montanha de quirão e brincar de deusa da cura mitológica e sair de lá iluminada e pedante. pego um café com leite de soja no caminho e sento numa mesa vazia de um bar fechado perto da rough trade e tomo um solzinho lendo a bula. faço tempo esperando que a luz volte e eu possa ligar o aquecedor quando chegar em casa. o sol dura 5 minutos. chego em casa e o alarme de emergência parou. de volta ao mundo civilizado, ligo o laptop e procuro a musica que não sai da minha cabeça desde sábado a noite, quando fui ver o show do plaid e saí fissurada no luke vibert. aqui vai o link youtube da música, que não tem clipe. bem maloqueira. ADORO
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LUKE VIBERT – WAGON CHRIST – CHRIS CHANA